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sábado, 15 de outubro de 2011

Medo e aflição

Era uma sexta-feira, mais precisamente dia 30 de setembro de 2011, às 18h em Bissau.
Após deixar uma amiga no hotel e ao término de uma semana bem tensa, fui dirigindo a embaixada do Brasil onde encontraria um vendedor de tecidos africanos.


Quando ía fazer a curva na praça principal da cidade, o carro que estava na minha frente parou no meio da rua. Como isso não é incomum aqui, pois os carros param na contramão, no meio da rua, em qualquer lugar, eu desviei e segui adiante.


Vi então que as pessoas olhavam em direção ao palácio destruído na guerra civil e ao andar mais alguns metros observei que alguns militares faziam alguma cerimônia no local.


Pensei:
- droga, não vou poder passar ali agora, mas não vou parar meu carro no meio da rua que nem eles fazem. 




Virei entao para pegar a primeira rua à direita e não passar na cerimônia.
Neste instante vem na frente do meu carro um homem que manda eu parar o carro e começa a gritar algo em crioulo.


Pensei:
- não posso passar nessa rua.


Abri a janela e disse:
Só falo português, mas vou sair daqui.


Engatei a ré e ele segurou o carro gritando algo como: - não mexa esse carro daqui. E me mandou descer do carro, em português.


Começou a berrar comigo que eu estava desrespeitando a bandeira nacional e que como já se viu eu movimentar o carro enquanto estava sendo feita à cerimônia. Que se eu vi que o carro na minha frente parou eu devia ter parado também.


Tentei argumentar que não conheço os costumes locais e que estava à pouco tempo na guiné e pedia desculpas porque eu não tinha tido a intenção de desrespeitar nada.


O homem continuou berrando. Eu então disse que trabalhava para a embaixada e que faria uma ligação.
Ele disse que eu não ligaria coisa nenhuma. Já com as pernas bambas e bem apavorado eu respondi:
- Vou sim fazer a ligação para o embaixador esclarecer a situação com o senhor. 


Liguei e prontamente recebi o retorno no embaixador que perguntou se havia alguma autoridade presente, mas como não havia, ele iria até o meu encontro.


Mais calmo, eu encostei no carro a espera do embaixador. Neste instante vem a tropa que fazia a cerimônia em minha direção e o homem que parou o meu carro deu outro berro (tipo tropa de elite) de que eu tinha que ficar em posição de sentido (militar) o que fiz, me achando ridículo naquela submissão.


Enfim, chegou então o embaixador brasileiro com um oficial do exército brasileiro e o motorista guineense que logo esclareceram a situação e fomos embora.


Por muitos momentos eu senti de fato medo de dali não mais conseguir sair...

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Escritor bissau-guineense lança "Palavras Suspensas" em Brasília

Brasília - "Palavras suspensas", coletânea de poesia do escritor bissau-guineense Francisco Conduto de Pina, editado pela Thesaurus, foi lançado nesta quinta-feira (22) durante evento na Embaixada de Portugal, na capital federal.

A apresentação do livro do escritor e parlamentar guineense, que se estreeou em 1978 com "Grandessa di Nô Tchan" (Grandeza da nossa terra, em tradução livre), no Instituto Camões, foi acompanhada de um recital do pianista Adriano Jordão, que executou a "Grande Fantasia Triunfal sobre o Hino Nacional Brasileiro", de autoria do compositor Louis Moreau Gottschalk.

De acordo com nota dos organizadores do evento, esta foi a primeira vez que um escritor bissau guineense lança um livro em Brasília.

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Poesia Guineense

Eu sou menino de Tabanca


Ao amanhecer piso o chão suado,
Recordo melodias, acalentos.
Eu sou menino cultivador,
Semeio as doces flores no meu sonho,
As minhas mãos adultas se sujam de terra fértil.


A minha barriga é um tambor
Um tambor que não soa dor,
O meu pé é uma enxada que rompe o solo campestre.
Nas noites suadas, a lua apaga-se dentro do meu sangue
(No sangue febril e morno de menino)
Embebedam-se as ervas e as raízes para matar os vermes
Mas estes malignos bichos rejeitam os efeitos
e brincam no meu tambor.


Não posso renegar o que sou
Obedeço a mim de ser o menino de tabanca.
O meu nome está nas folhas das ervas
Nas margens dos arvoredos ou matagal
Não nas folhas do notariado.






Sei que o meu direito é torto, mas,
Na tabanca vivo à vontade
Ninguém me desconhece
A minha identidade está nos calos das mãos e dos calcanhares
Está nos olhares famintos que perfuram gaiolas de passarinhos,
Está nas sombras floridas em que me instalo
Por ser menino, canto esses versos vulgares, melodicos.
Berro e cacarejo enquanto cultivo na terra molhada.
Misteriosamente desobedeço aos preceitos tabanqueiros.
Como se vê, no desvio do meu pranto,
Resgato do chão submerso a esperança de quem sou
Do simples Menino de tabanca que sonha.

António Navegante de Catidi