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Lua Adversa - Cecília Meireles no livro Viagem Vaga Música
Tenho fases, como a lua Fases de andar escondida, fases de vir para a rua... Perdição da minha vida! Perdição da vida minha! Tenho fases de ser tua, tenho outras de ser sozinha.
Fases que vão e vêm, no secreto calendário que um astrólogo arbitrário inventou para meu uso.
E roda a melancolia seu interminável fuso! Não me encontro com ninguém (tenho fases como a lua...) No dia de alguém ser meu não é dia de eu ser sua... E, quando chega esse dia, o outro desapareceu.. Cecília mais sobre ela: http://pt.wikipedia.org/wiki/Cec%C3%ADlia_Meireles
"Ah, bem melhor seria Poder viver em paz Sem ter que sofrer Sem ter que chorar Sem ter que querer Sem ter que se dar
Mas tem que sofrer Mas tem que chorar Mas tem que querer Pra poder amar
Ah, mundo enganador Paz não quer mais dizer amor
Ah, não existe coisa mais triste que ter paz E se arrepender, e se conformar E se proteger de um amor a mais
O tempo de amor É tempo de dor O tempo de paz Não faz nem desfaz
Ah, que não seja meu O mundo onde o amor morreu
Ah, não existe coisa mais triste que ter paz E se arrepender, e se conformar E se proteger de um amor a mais E se arrepender, e se conformar E se proteger de um amor a mais "
Que o meu tempo seja o tempo de viver, de experimentar, de ousar e de arriscar. Porque a paz e a segurança são tempos de dor, mas uma dor que não me satisfaz. E a vida é uma só. E é pra ser vivida, em toda a sua intensidade, paixão , amor e fervor. Sim, há que sofrer, há que chorar, mas há que viver.
A injustiça passeia pelas ruas com passos seguros. Os dominadores se estabelecem por dez mil anos. Só a força os garante. Tudo ficará como está. Nenhuma voz se levanta além da voz dos dominadores. No mercado da exploração se diz em voz alta: Agora acaba de começar: E entre os oprimidos muitos dizem: Não se realizará jamais o que queremos! O que ainda vive não diga: jamais! O seguro não é seguro. Como está não ficará. Quando os dominadores falarem falarão também os dominados. Quem se atreve a dizer: jamais? De quem depende a continuação desse domínio? De quem depende a sua destruição? Igualmente de nós. Os caídos que se levantem! Os que estão perdidos que lutem! Quem reconhece a situação como pode calar-se? Os vencidos de agora serão os vencedores de amanhã. E o "hoje" nascerá do "jamais".
Contínua tentativa fracassando, Minha vida é uma série de atitudes. Minhas rugas mais fundas que taludes, Quantas máscaras, já , vos fui colando?
Mas sempre, atrás de Mim, me vou buscando Meus verdadeiros vícios e virtudes. (-E é a ver se te encontras, ou te iludes, Que bailas nesse entrudo miserando...)
Encontrar-me? iludir-me? ai que o não sei! Sei mas é ter no rosto ensaguentado O rol de quantas máscaras usei...
Mais me procuro, pois, mais vou errado. E aos pés de Mim, um dia, eu cairei, Como um vestido impuro e remendado!
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"Tem dias que a gente se sente, como quem partiu ou morreu. A gente estancou de repente, ou foi o mundo então que cresceu. A gente quer ter voz ativa, No nosso destino mandar. Mas eis que chega a roda viva, e carrega o destino pra lá."
A gente cansa, a gente dança, o que será de nós quando o estômago rói, contorce, retorce e arde? Olhando pro horizonte, tão belo e amplo, estamos a todo instante nos colocando em dúvida sobre sentimentos, dores e amores.
Vai
e vem.
Os quarenta graus fritam o nosso pensamento e o nosso sentimento cozinha. Mas não em banho maria, em forno ardente, uma estufa de idéias, que brotam e logo após murcham.
"Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos doces Estendendo-me os braços, e seguros De que seria bom que eu os ouvisse Quando me dizem: "vem por aqui!" Eu olho-os com olhos lassos, (Há, nos olhos meus, ironias e cansaços) E cruzo os braços, E nunca vou por ali... A minha glória é esta: Criar desumanidades! Não acompanhar ninguém. — Que eu vivo com o mesmo sem-vontade Com que rasguei o ventre à minha mãe Não, não vou por aí! Só vou por onde Me levam meus próprios passos... Se ao que busco saber nenhum de vós responde Por que me repetis: "vem por aqui!"? Prefiro escorregar nos becos lamacentos, Redemoinhar aos ventos, Como farrapos, arrastar os pés sangrentos, A ir por aí... Se vim ao mundo, foi Só para desflorar florestas virgens, E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada! O mais que faço não vale nada. Como, pois, sereis vós Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem Para eu derrubar os meus obstáculos?... Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós, E vós amais o que é fácil! Eu amo o Longe e a Miragem, Amo os abismos, as torrentes, os desertos... Ide! Tendes estradas, Tendes jardins, tendes canteiros, Tendes pátria, tendes tetos, E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios... Eu tenho a minha Loucura ! Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura, E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios... Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém! Todos tiveram pai, todos tiveram mãe; Mas eu, que nunca principio nem acabo, Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo. Ah, que ninguém me dê piedosas intenções, Ninguém me peça definições! Ninguém me diga: "vem por aqui"! A minha vida é um vendaval que se soltou, É uma onda que se alevantou, É um átomo a mais que se animou... Não sei por onde vou, Não sei para onde vou Sei que não vou por aí!
José Régio, pseudônimo literário de José Maria dos Reis Pereira, nasceu em Vila do Conde em 1901. Licenciado em Letras em Coimbra, ensinou durante mais de 30 anos no Liceu de Portalegre. Foi um dos fundadores da revista "Presença", e o seu principal animador. Romancista, dramaturgo, ensaísta e crítico, foi, no entanto, como poeta. que primeiramente se impôs e a mais larga audiência depois atingiu. Com o livro de estréia — "Poemas de Deus e do Diabo" (1925) — apresentou quase todo o elenco dos temas que viria a desenvolver nas obras posteriores: os conflitos entre Deus e o Homem, o espírito e a carne, o indivíduo e a sociedade, a consciência da frustração de todo o amor humano, o orgulhoso recurso à solidão, a problemática da sinceridade e do logro perante os outros e perante a si mesmos.